quarta-feira, 18 de abril de 2012

923 - Ária de levitação para seixo escondido na areia


respira em desatino a imperfeição da pedra
assim pousada, no soslaio de viço e silencio
feito pássaro que se empluma em altiplano
cegos nós que se corroem gesto e argúcia

em dois gumes também se afia pedra e paixão
do amor se espera o alado, regaço de nuvem
mas se arqueia de soçobro em vereda mineral
ferro e fogo se agitam em périplo de singeleza

terça-feira, 17 de abril de 2012

922 - poema de silencio e prece para levitação de nuvens


não sou mais eu mesmo desde que te percebi
agora me brota um vasto desconhecimento
a sensação atávica de deslocamento no mundo
antes me bastava a palavra para a completude
o arrebol que eu tecia com artimanha e sílabas
pois hoje todo o verbo se cumpre em ausência
nada significa sem o calor do sopro da tua voz
nem mesmo o fogo arde nesta pele castigada

segunda-feira, 16 de abril de 2012

921 - poema de sagração ao princípio do alvoroço


no gênesis original não existia amor
quem sabe junção de carnes, coito
mas o homem deu de olhar estrelas
e perceber-se em seu oposto, afoito

e de passear pelos astros o alvoroço
e sentir na alma o arrepio e o anseio
condoeu-se o céu de suma querência
assim se fez desatino em meio ao dia

quando o postar-se em contemplação
quando o levitar de brisas e assovios
juntou-se na ordem dinâmica da vida
e girassóis rugiram o norte em lilases

domingo, 15 de abril de 2012

920 - Berceuse para acalentar o viço de uma aragem


Transita-me o beijo como farol
A passagem de saliva e sílaba
O arroubo que umedece o sal

Transita-me a pele em fagulhas
Um arrepio de pelos em gládio
A desordenada conjunção de ais

sábado, 14 de abril de 2012

919 - Sonata de esmero para olhos em cascata


Ao acaso de um gesto
Ao sopro de uma brisa
Ao brilho de um lilás
Há vertigens e sinais

Ao esmero dos lábios
Ao desatino de braços
Ao lenço de sargaços
Há uma tiara de laços

Ao ornamento da face
Ao níveo da perfeição
Ao âmago da singeleza
Há luzes e constelações

sexta-feira, 13 de abril de 2012

918 - Canção de renovo para quimeras do alvorecer


Soluçam as têmporas nesta estação
Em cada palavra de breve outono
arqueja o alvoroço de tuas nuvens

foste o arroio, a enseada, o estuário
o princípio incandescente da saliva
os brotos d’uma incessante ventura

quinta-feira, 12 de abril de 2012

917 - La ventana de tus ojos


para Lara Amaral

sequioso por velas
empunho o arco
numa breve nota

a guelra respira
por essas janelas
que soçobram

o coração pousa
azul e apascentado
: monocórdico

quarta-feira, 11 de abril de 2012

916 - Poema de chuva sob céu a descoberto


Outrora me moviam os passos
Hoje são arrepios que conduzem
O vício de esperar a tua chegada

A precipitação do desassossego
Que inunda a solidão dos sentidos
Como a chuva que me corta a face

terça-feira, 10 de abril de 2012

915 - canção de esporas ao vento em corcel alado


no dorso voraz das tuas ancas
serpenteia a sede de amanhãs
o solilóquio recanto das palavras
a brevidade do mergulho insano
o perder-se que não desencontra
o amálgama de raios e desvarios 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

914 - Canção inquieta de perfume e amanhecimento


os desígnios do teu olhar me atravessam
numa eternidade de chama em paixão
brisa e horizonte embevecidos de jasmim

há uma pausa que me inquieta a manhã
a tormenta de alguns segundos paralisados
como a antevéspera que incita o beijo teu

domingo, 8 de abril de 2012

913 - rondó de adivinhas para olhos, ouvidos e vozes


eu fico lendo os teus sinais,
esperando nalguma esquina
que tu possas surgir
com teu passo de deusa
e fazer dos meus olhos
um farol de alvíssaras

eu fico lendo os teus sinais
em cada por de sol
na brisa mínima da manhã
neste cheiro que emana
da pele que se queima
na chaga de uma paixão

eu fico lendo os teus sinais
nos sons desesperados
que inundam minhas ruas
por onde passeio atônito
meus passos de peregrino

eu fico lendo os teus sinais
em cada odu de um búzio
na predição das cartas
nos loucos mapas astrais
na direção torta e assustada
dos girassóis ensimesmados

sábado, 7 de abril de 2012

912 - rondó para altiplano e pomos imarcescíveis


fosse maçã nuas frutas encarnadas
em desespero de toque e encanto
sobre pele branca de nuvem e neve

fosse ímpeto, salto, rota de extravio
mão de anjo para render em preces
velas para imolar vagas em desafio

fosse inundação de saliva e arrepio
altiplano para suster-se em suspiros
o cândido, claro, níveo imarcescível