domingo, 23 de setembro de 2012

1001 + 12 - Ensaio para aves astutas, assustadas com o sibilo do canto


“Temos a arte para não morrer da verdade”
Friedrich Nietzsche

Não sei por que razão coleciono
estragos, abismos, desvios
Tenho uma inata propensão ao silêncio
Quando me olham eu enrubesço
Mas na maioria das vezes sou invisível
Nunca me atraso, nunca me esqueço
Estou sempre atento, cordial, solícito
Com um interesse imediato aos afetos
Cultivo a arte de não morrer de tédio
De disfarçar a verdade com o sorriso
De oferecer possibilidade ao encontro
Afora isso não há nada de precioso,
De virtudes graves, apenas melancolia
Uma terrível e imensa melancolia

sábado, 15 de setembro de 2012

1001 + 11 - canção para florais silvestres e essência de nuvens


não é de um sonho que te falo
nem do vazio que nos habita
nem mesmo de florais e lilases
há um gosto de areia nos olhos
um mar inacessível em vagas
há o rijo, mineral, imarcescível
essas coisas dunas a incendiar
desertos, ilhas e promontórios

não é de um sonho que te falo
quiçá de quimeras e desalinhos
coisas que nos imantam o peito
há os girassóis em eterno ciclo
a ausência, o castigo, a demora
a babel de todas as linguagens
o cais em que tememos ancorar
esta atroz e infindável distancia


*Poemas meus na revista Mallarmargens, um luxo!

http://www.mallarmargens.com/2012/09/3-poemas-de-assis-freitas.html

sábado, 8 de setembro de 2012

1001 + 10 - ária de bem-querer para um inventário de seduções


ela falava do alimento de nossas línguas
os corpos em estágio de sedução
bailava os lilases em calcinha rendada
evocava as palavras mais belas em ebulição
éramos tão infinitos no nosso querer
no espaço indestrutível dos loucos abraços
ela falava do alimento de nossas línguas
eu mostrava as sementes do alumbramento
tudo crescia em vertigem no carinho de mãos
havia tanto de nós na pele de sutis extravios
que ficávamos nuvem em etérea suspensão
incandescentes na imersão de tantos líquidos

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

1001 + 9 - Poeminha para vagas e nuvens desordenadas


Eu te respiro na luz imprecisa deste mar
na lâmina deste céu turvo e espantado
porque estou todo em rumor de abismo
e me esgarço em tuas semente e novelos
e o tempo e o fuso e o limiar e a fortuna
se acirram na quimera frágil do teu nome

p.s. “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo” 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

1001 + 8 - Ária para o desconcerto do amor e a inquietude do silêncio


(versão em desalinho)

Já não me assustam as manhãs sem teu cheiro
O horizonte se move em ansiedade de passos
As geografias se foram em lento desassossego
Nada mais de ti me pertence como este outrora
Desfiz o inventário de poemas lívido e aturdido
Agora só resta este espinho entre os teus lilases


p.s. “a espera é não acontecer

terça-feira, 4 de setembro de 2012

1001 + 7 - Um poema para luzir o incenso da vastidão


Para me demorar em teus olhos
Deslizo luas sobre o azeviche
Alimento urgência de uma sede
Cultivo as raízes do incêndio

Invento as bandeiras do súbito
No lume impalpável do cristal
Desperto ilhas, perquiro aromas
Para me demorar em teus olhos

Acaricio o resíduo da nua retina
Para me demorar em teus olhos
Na doçura que cresce e se repete
O corpo em órbita que se esquece

p.s. “Sou o que é ninguém.
Um esquecimento, um eco, um nada”. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

1001 + 6 - Ária para alísios inquietos e súbitos do orvalho


Simplesmente porque amo
Inauguro sabores em tua face
Desenho a chuva nas vidraças
Caminho lento no dorso do orbe
E minhas mãos respiram tua voz
A nuvem talha a curva da cintura
E o lábio cinge o engano do vento

Simplesmente porque amo
Faço festa no perfume da terra
Cultivo a oferenda breve de nadas
E a minha morada é desassossego
Simplesmente porque amo
Os olhos já não me pertencem
Desfolho em vão os gomos do tempo

sábado, 25 de agosto de 2012

1001 + 5 - Ária para uma canção de amor e ruína


Nas dobras do rosto
Nos rasgos da mão
Na estranha obediência
Do pássaro em voo
Eu te amo
E não te amaria se
Não houvesse
Esta quimera da noite
Este soluço de estrela
O segredo da alvorada
A intimidade do sonho

Pois nada mais sei
E comungo a volúpia
Das perguntas inquietas
Que são toscas raízes
Na direção do invisível
Te amo como o cheiro
De um céu que não vejo
E te desenho atônito
No branco dos muros
E te busco no resíduo
Dessa linguagem inábil

*à guisa de um poema de amor para uso tópico

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

1001 + 4 - a explicação de pasárgada e outras ausências


porque me fizeste entre os olhos e alba
e na luminescência alva eu me inclinava
tudo era centro para desejo do coração

naquelas margens onde outrora vicejava
ela nadava solene em seus pensamentos
era tanto sol que lhe penteava os cabelos

porque havia este mistério no firmamento
porque havia a singela mão a se estender
como o teu hálito ao eflúvio das estações

p.s. porque há palavras que escrevo e apago

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

1001+ 3 - Antipoema para brisa marinha, oboé e céu imenso


(á guisa de um metaplagio de Mallarmé)

Já me partem os raios
Eu me despedaço
No cerne da palavra
Meu verso é virgem
Aurora, estrela, solitude
Dói-me o vário, a onda
A embriaguez do nada
Agora respiro a canção
Sou teu branco anseio
O derradeiro silêncio

p.s. “a carne é triste, sim,
e eu li todos os livros”


*porque há o ubíquo e o similar

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

1001+2 - Sonata para rubro amanhecimento


(primeira cantata em prelúdio)

Sob as canções descansaríamos
Imersos nesta vaga insone
Embebidos em rútilo devaneio
Porque ontem não nos sabíamos
Nada éramos em premissa
Sequer havia palavras a nomear
Nenhum verso nos seria capaz

Sob as canções descansaríamos
Neste inexequível horizonte
No inalcançável silêncio da nuvem
Porque ontem não nos sabíamos
Nada éramos em relâmpagos
Sequer havia as sílabas da carne
Nenhum verso nos vestiria a pele


*porque há caminhos que convergem

domingo, 5 de agosto de 2012

1001+1 - ensaio para o jardim dos versos que se bifurcam


a Jorge Luis Borges

que singular mistério terá sido este
cujo sonho é poço e pêndulo
laminas afiadas, tigres, labirintos

que estranha linhagem de chamas
são estes mapas, bússolas, rios
neste findar-se em lágrima e cristal

que rigorosa complexidade
terá traçado a linguagem, que
dela o acaso não pode prescindir

que infinito terá na areia e no livro
na catequese do espírito e da treva
neste duplo ausentar-se em sonho

que pródigo terá a sua Ítaca revisitada
os fios de Penélope a lhe dourarem
o semblante na confluência do ocaso

*porque este poema teria que estar aqui.