quarta-feira, 17 de outubro de 2012

1001 + 18 - Ensaio sobre o diálogo líquido dos peixes


Não me assusta o desconhecimento
Nada sei sobre o bóson de Higgs
Partícula de Deus, escala de Planck
Mas me trafega este frágil universo
Os fragmentos de todas as teorias
Experimentos sensoriais do plâncton

Não me assusta o desconhecimento
Nada sei da constituição da nuvem
Da evaporação das águas, convecção
Mas me encanta o ponto de orvalho
O arrefecimento que resulta em vapor
Os cristais de gelo e toda sublimação

Não me assusta o desconhecimento
Nada sei da neurobiologia da paixão
Dos estágios platônicos da dopamina
Mas carrego os reveses sutis da libido
A intimidade que reveste a ocitocina
A linguagem orgasmática deste vazio

terça-feira, 16 de outubro de 2012

1001 + 17 - auto de imposição para artefatos de atiçar imensidão


onde começa a tua ausência
se na pele não cabe distância
se palavras tem cheiro e olhos
e toda nuvem se condensa
num lampejo de súbito arrepio
onde começa a tua ausência
se me atravessa teu infinito
neste ebúrneo desassossego

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

1001 + 16 - primeiro estudo para recusa e remissão


eu não olhei nos teus olhos
quando me invadiu a madrugada
os cães latiam solitários
alguns bêbados eram sargaços
a única estrela era a escuridão
e eu caminhava trôpego em ti
teus seios bolinavam o âmago
como a flor incendiária da manhã
eu não conseguia te ascender

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1001 + 15 - auto de elogio para lembranças do caos


lavadeiras do rio depõem roupas ao ocaso
eu ando em frangalhos, esmerilho nos pés
de areia, deserto e acaso é feito o caminho

lavadeiras do rio expõem migalha e anágua
eu sou o couro desse vazio, pele sem ninho
de seixo, pedra e mormaço: o brilho na cruz

a faca no olho, o minério, o susto no soslaio
as lavadeiras do rio suspiram o fiar da água
enquanto sonho cioso o caos dos girassóis

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

1001 + 14 - Poema para solidão, crepúsculo e barcos acinzentados


Preciso aprender mais coisas além de você
Decifrar a rota dos anfíbios, o voo da águia
O sentimento do fogo e de outros materiais
A rota misteriosa das águas entre as pedras

Preciso aprender mais coisas além de você
A incompletude da palavra para os amantes
A mecânica que realça as asas da borboleta
O encantamento dos seixos e coisas miúdas

Preciso aprender mais coisas além de você
A fazer sorrir com dentes o apetite do amor
A força morna da areia que inunda desertos
A perceber o perfume dos alísios e da brisa

Preciso aprender mais coisas além de você
A vestir espumas com o branco da saudade
Preencher de infinitos a quietude dos lábios
A recitar vestígios do girassol e da alvorada 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

1001 + 13 - Poema de residência para o tempo e o tédio


eu desconheço as verdades
morreram bem antes de mim
só sei do mínimo, do exíguo
das coisas que levitam longe
no folguedo das andanças

vivo da carpintaria do verso
do sopro da linhagem pária,
do verbo imerso em maestria
na ramificação do sem lógica
no ápice nascido do alvoroço

eu desconheço as verdades
comungo o florir do absurdo
pois me cavalgam urgências
uma incontrolável demência
a insaciável e trêmula pétala

domingo, 23 de setembro de 2012

1001 + 12 - Ensaio para aves astutas, assustadas com o sibilo do canto


“Temos a arte para não morrer da verdade”
Friedrich Nietzsche

Não sei por que razão coleciono
estragos, abismos, desvios
Tenho uma inata propensão ao silêncio
Quando me olham eu enrubesço
Mas na maioria das vezes sou invisível
Nunca me atraso, nunca me esqueço
Estou sempre atento, cordial, solícito
Com um interesse imediato aos afetos
Cultivo a arte de não morrer de tédio
De disfarçar a verdade com o sorriso
De oferecer possibilidade ao encontro
Afora isso não há nada de precioso,
De virtudes graves, apenas melancolia
Uma terrível e imensa melancolia

sábado, 15 de setembro de 2012

1001 + 11 - canção para florais silvestres e essência de nuvens


não é de um sonho que te falo
nem do vazio que nos habita
nem mesmo de florais e lilases
há um gosto de areia nos olhos
um mar inacessível em vagas
há o rijo, mineral, imarcescível
essas coisas dunas a incendiar
desertos, ilhas e promontórios

não é de um sonho que te falo
quiçá de quimeras e desalinhos
coisas que nos imantam o peito
há os girassóis em eterno ciclo
a ausência, o castigo, a demora
a babel de todas as linguagens
o cais em que tememos ancorar
esta atroz e infindável distancia


*Poemas meus na revista Mallarmargens, um luxo!

http://www.mallarmargens.com/2012/09/3-poemas-de-assis-freitas.html

sábado, 8 de setembro de 2012

1001 + 10 - ária de bem-querer para um inventário de seduções


ela falava do alimento de nossas línguas
os corpos em estágio de sedução
bailava os lilases em calcinha rendada
evocava as palavras mais belas em ebulição
éramos tão infinitos no nosso querer
no espaço indestrutível dos loucos abraços
ela falava do alimento de nossas línguas
eu mostrava as sementes do alumbramento
tudo crescia em vertigem no carinho de mãos
havia tanto de nós na pele de sutis extravios
que ficávamos nuvem em etérea suspensão
incandescentes na imersão de tantos líquidos

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

1001 + 9 - Poeminha para vagas e nuvens desordenadas


Eu te respiro na luz imprecisa deste mar
na lâmina deste céu turvo e espantado
porque estou todo em rumor de abismo
e me esgarço em tuas semente e novelos
e o tempo e o fuso e o limiar e a fortuna
se acirram na quimera frágil do teu nome

p.s. “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo” 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

1001 + 8 - Ária para o desconcerto do amor e a inquietude do silêncio


(versão em desalinho)

Já não me assustam as manhãs sem teu cheiro
O horizonte se move em ansiedade de passos
As geografias se foram em lento desassossego
Nada mais de ti me pertence como este outrora
Desfiz o inventário de poemas lívido e aturdido
Agora só resta este espinho entre os teus lilases


p.s. “a espera é não acontecer

terça-feira, 4 de setembro de 2012

1001 + 7 - Um poema para luzir o incenso da vastidão


Para me demorar em teus olhos
Deslizo luas sobre o azeviche
Alimento urgência de uma sede
Cultivo as raízes do incêndio

Invento as bandeiras do súbito
No lume impalpável do cristal
Desperto ilhas, perquiro aromas
Para me demorar em teus olhos

Acaricio o resíduo da nua retina
Para me demorar em teus olhos
Na doçura que cresce e se repete
O corpo em órbita que se esquece

p.s. “Sou o que é ninguém.
Um esquecimento, um eco, um nada”.