sexta-feira, 23 de novembro de 2012

1001 + 25 - Litania para inventar rios, rosas e orvalho




Estavas tão transparente em teu riso
Oblíquo fulgor em simetria
Com as sílabas plasmando os lábios
Em simples triunfo do sossego
Numa leveza de pássaro em canto
Que eu pensei no súbito da alegria
Na invasão do silêncio sob a água
No instigante afogamento da luz
Na urgência das coisas a respirar-te

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

1001 + 24 - Ária desconexa para zepelim e olhos distraídos


para a poetinha Daniela Delias que tem na memória um zepelim


Se tu viesses feito encanto
Leite derramado
sol em pranto
Rima ou rímel
anel ou brinco

eu te veria veia à mostra
astrolábio, solilóquio
asa de bem-te-vi
helianto em espanto
vestida em gris





sábado, 17 de novembro de 2012

1001 + 23 - Ensaio sobre a essência da carne e o aroma dos sentidos


Porque o amor é sangue
Vísceras,
Corpos pusilânimes
Outrora nunca saciado

Porque o amor é dúvida
Dívida de carne
Recorte de um seio
Morte de um veio

Porque o amor é cessação
vulto na espreita
volta sem correspondência
ausência, ausência, ausência

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

1001 + 22 - canção de gesta para o apocalipse do vento


o poema se deita sobre a imensidão
há todo um abismo à espera
para o breve estilhaçar dos olhos

assim sob a pálpebra da vertigem
convenço-me de que sou apenas pele
limo, visgo do que me sopra a palavra

enquanto se repartem os grãos do caos
assisto ao êxodo silente dos axiomas
no incessante e pueril cortejo dos gestos 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

1001 + 21 - Um breve registro para a incompletude das nuvens


No céu azulado venta apenas
Nenhuma palavra me aceita
Sujeito ermo, a coser vazios

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

1001 + 20 - canto para Rimbaud numa estação do inferno


procura-me entre tuas chagas
no teu canto mais desavisado
na memória do coito impreciso
nestas tuas unhas de vermelho
que suspiram sangue e moléstia

procura-me, talvez, nos becos
na boca escancarada de tédio
nos olhos solitários da virgem
que oferece um sexo inaugural
como esta rua de chuva e lama
como atônito jardim sem função

procura-me nas vestes últimas
de tecido puído a se desintegrar
na pele desgastada de inventos
de tanta língua, ranhura e vento

procura-me na sombra do porém
na circunstância deste assombro
o despertar de nuvem sem aurora
no cálido, no pálido, no esquálido

procura-me e intenta-me no rasgo
no corte, na víscera que se expõe
tal qual esta algazarra sem vozes
na tormenta, na procela, mergulho
procura-me devagar que já escuto

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

1001 + 19 - Poema para a combustão de asas


Não te quero falar de saudades.
Há o mar e nele o infindável:
Horizontes, velas, descobertas.
Será assim. Aprendi a inflar o
instante. A admitir o cotidiano
como passatempo. Repara que
os girassóis tardios se ruflam.
A carne urge recompensa. As
mãos exaustas pedem a sorte
de muitas vontades. O coração
é esta flecha atormentada. Mas
com a eterna missão de futuro:
de estrela a luzir alvíssaras. As
fotografias nada recordam. São
a estética fria do desenlace. Os
medos, as frias madrugadas, as
intermitências da febre. Todos
os perigos se foram. Este lento
amanhecer ilumina meu rosto:
beija-me a verdade desta hora.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

1001 + 18 - Ensaio sobre o diálogo líquido dos peixes


Não me assusta o desconhecimento
Nada sei sobre o bóson de Higgs
Partícula de Deus, escala de Planck
Mas me trafega este frágil universo
Os fragmentos de todas as teorias
Experimentos sensoriais do plâncton

Não me assusta o desconhecimento
Nada sei da constituição da nuvem
Da evaporação das águas, convecção
Mas me encanta o ponto de orvalho
O arrefecimento que resulta em vapor
Os cristais de gelo e toda sublimação

Não me assusta o desconhecimento
Nada sei da neurobiologia da paixão
Dos estágios platônicos da dopamina
Mas carrego os reveses sutis da libido
A intimidade que reveste a ocitocina
A linguagem orgasmática deste vazio

terça-feira, 16 de outubro de 2012

1001 + 17 - auto de imposição para artefatos de atiçar imensidão


onde começa a tua ausência
se na pele não cabe distância
se palavras tem cheiro e olhos
e toda nuvem se condensa
num lampejo de súbito arrepio
onde começa a tua ausência
se me atravessa teu infinito
neste ebúrneo desassossego

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

1001 + 16 - primeiro estudo para recusa e remissão


eu não olhei nos teus olhos
quando me invadiu a madrugada
os cães latiam solitários
alguns bêbados eram sargaços
a única estrela era a escuridão
e eu caminhava trôpego em ti
teus seios bolinavam o âmago
como a flor incendiária da manhã
eu não conseguia te ascender

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1001 + 15 - auto de elogio para lembranças do caos


lavadeiras do rio depõem roupas ao ocaso
eu ando em frangalhos, esmerilho nos pés
de areia, deserto e acaso é feito o caminho

lavadeiras do rio expõem migalha e anágua
eu sou o couro desse vazio, pele sem ninho
de seixo, pedra e mormaço: o brilho na cruz

a faca no olho, o minério, o susto no soslaio
as lavadeiras do rio suspiram o fiar da água
enquanto sonho cioso o caos dos girassóis