sexta-feira, 1 de março de 2013

1001 + 49 - fragmento ctônico para górgonas


não me cobre o olhar:
da trança de medusa
- prefiro ser pente



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

1001 + 48 - Epístola para rumor de águas na alma


Caminho sobre escombros de terra e sal
A chaga no olho o mar apaziguou
Fito sereno a antiga palavra
Aquela que no corpo se consumiu
De onde estou aprendi a ouvir o silêncio
Meu coração está inteiro poema

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

1001 + 47 - canção de metaplagio para cavalinhos de bandeira


Cansei de viver de brisa Anarina
Agora quero tudo que não tenho
Bafejo de mar, nuvem dançarina

Quero cortejo de horizontes
Esperanças perdidas em becos
Andorinha fazendo verão

Cansei de viver de brisa Anarina
Ternura e corações despedaçados
Amar-te como passarinho morto

Pasárgada não me espere
Passei a vida inteira à toa, à toa

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

1001 + 46 - tratado sobre a vigília do orbe


uma inércia longínqua 
me fazia sombra
quando a noite dissolvia 
silêncio e solidão:
eu me pensava 
pássaro em suicídio

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

1001 + 45 - Ária para um poema d’além mar


Ao Leonardo B.

já nos escrevemos por tantos
e vagam-nos alfarrábios e pele

o tempo nos guarda este
singelo
cortejo de vazios

se somos não estamos
há uma sucessão de nadas

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

1001 + 44 - fragmento para duas ou três mortes


o corpo é esta nau em desalinho
sob um sol que me come a pele
triste: o vento que a nada impele

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

1001 + 42 - Quando o poema é apenas circunstância



o nume, o lume
há que se acender
como aquele farol

para anunciar o nome
com sílabas em sorriso

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

1001 + 41 - à guisa de um exercício para abandono


para Nydia Bonetti

com quantos corpos se faz a solidão
com quantos mares se traga o amor
com quantas esperas se bebe a dor

para quantas margens convergem
o alvoroço de pétalas, o voo silente
repentino de sílaba que não alvorece

as coisas que se escondem enfermas
como a ária antiga esquecida na voz

com quantos anseios se rasga o peito
se o abandono é olor que beija a pele

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

1001 + 40 - Ensaio instável sobre os princípios gasosos da matéria


Quem disse que tu és quimera
Se estás inteira aqui na pele
Enquanto prossigo e respiro
E até os meus olhos singram
Por este oceano que tu miras
(As unhas crescem e os cabelos
Se atormentam de vento)
E mesmo os navios reorientam
Bússolas, reordenam mapas
(Quando fores estuário
Quando fores marés
Quando fores vazante)
E feito Ulisses avisto a Ítaca
E as tranças de Penélope
E preparo o corpo para mãos
Nesta imensa solidão e ruína 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

1001 + 39 - estudo singular sobre plumas, minérios e afins


daquele sonho de asas
ficou a ideia de voo
sobre rasos precipícios

daquele sonho de águas
ficou a ideia de liquido
sobre rasos que inundam

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

1001 + 38 - A canção de amor para fogo e imensidão


Então sigamos tu e eu, como naquele poema do Elliot,
Tu me emprestas os olhos para eu beijar as avenidas
Eu te ofereço este réquiem de silêncios
Mas nada sei além do cansaço de pernas e mãos
E há muito sereias não cantam no ermo da noite
E já não me lembro da insidiosa pergunta: qual?
E quem de nós ousaria perturbar o universo
Não é nada disso, em absoluto, nada disso
Apenas soluço e afivelo lâminas que não cortam
E assim vamos nos afogando neste vento gelado
Almejando a palavra impossível que se estende
no crepúsculo como este rio solene e insondável