segunda-feira, 13 de maio de 2013

1001 + 67 - Ária de sagração para pedra, flor e água


Não guardo nenhuma intempérie
Nem mesmo raios que ora me habitam
Atravessam a silhueta deste ubíquo olhar
Nada me alcança em tormenta

Venho desde muito longe
Até o mar submergir as palavras
Como uma pedra desnuda
E uma flor sem mágoa

quarta-feira, 8 de maio de 2013

1001 + 66 - Metaplagio cabralino para orgia de astros


um cão sozinho não tece a madrugada
ele precisará na rua de outros cães
que junto com ele elevem o uivo à lua
numa teia inconsútil de lágrima e solidão

sábado, 4 de maio de 2013

1001 + 65 - Metaplagio líquido para tempestade e ventania


(à guisa de um diálogo com Wilson Caritta Lopes)


Guardei nuvens em teus ninhos
Agora me vens em tempestades
Fulguras assim em cisma e raios
Fria lágrima cristalina sem idade

Tão nu sou tu nesta silhueta rude
Inverso de um outro que se abre
Do que sinto com a veste infinda
Semente de céu deveras anunciada

Assis Freitas


*O cara da tempestade*

Guardei sua chuva nos meus ninhos,
desde então, pressinto tempestades,
livro-me de toda roupa, logo que sinto
as primeiras ventanias encharcadas.

Eu me visto com seu corpo,
e mesmo de olhos fechados
defino a silhueta dos seus ombros
sob raios e cismas da pior seca

Surja pelas sombras negras
deixe que as lágrimas vertidas
pelo céu transformem-sêmen...

Pode inundar a terra trazendo vida
este amor com cara de alma lavada
levando nossa semente apaixonada.

Wilson Caritta


domingo, 28 de abril de 2013

1001 + 64 - parábola de vestal, sangue e oferenda


À noite, os lobos se vestem de lobos
e vão buscar suas ovelhas.
Durante o dia repousam solitários.
Mas, à noite os lobos precisam ser lobos.

Olha o presente lindo que a Tania me ofertou

sexta-feira, 26 de abril de 2013

1001 + 63 - sobre labirintos, túneis e o eterno retorno


Você vai e escreve um poema
Alguém lê e acha só enganos
Alguém teoriza sobre a linha evolutiva 
da poesia brasileira contemporânea
Alguém encontra substratos niilistas nos versos
Alguém reacende a discussão envolvendo 
os oximoros dialéticos na poética do pessoa
Você vai e escreve um poema

terça-feira, 16 de abril de 2013

1001 + 62 - Ensaio sobre pactos, cactos e espinhos


Tudo o que conheço são caminhos desolados
Paisagens remotas de homens sozinhos
A fome, a sede, a angústia
Nada que eu possa compartilhar sem febre
Neste incêndio que assola as retinas

quarta-feira, 10 de abril de 2013

1001 + 61 - “Um livro que só no escuro se consegue ler” *


As pedras caíam como nuvens em silêncio
Tudo era proscrito: a solidão: as sombras
Os espelhos: as flores no meio do oceano
Fustigavam os azuis, um atalho, um livro
Nada esperava por nós, mas se propagava
Este sangue inútil a atormentar suas veias

*o título é um verso de Tomas Tranströmer 

sábado, 6 de abril de 2013

1001 + 60 - Nenhuma marca incide a este rio


vais descendo sob meus olhos
como uma chuva apaziguada
sem raios ou trovões
embora tudo seja devastação

quinta-feira, 4 de abril de 2013

1001 + 59 - hoje me embriago por um amor ou um café


Quando o poema chega
Vem vadio feito inferno
Trajando um riso de lua

Então, feito cão em desterro
Tenho que uivar meus erros

quarta-feira, 3 de abril de 2013

1001 + 58 - Por mais que o coração seja mallarmé


Pronunciei teu nome ao vento
E atirei à sorte em lance de dados:
Deu silêncio

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1001 + 57 - receita para brindar amores aziagos


1 valsa triste
ou
1 ária de verdi
1 soneto de neruda
1 cohiba
memória de
minhas putas tristes
bourbon a gosto