sexta-feira, 16 de agosto de 2013

1001 + 77 - Ária de estertor para contralto profundo

Ela não mais virá
Com citações da Hilda
Ou poemas de Leminski
Há agora este real flamejante
O diário íntimo do cotidiano
A febre do fazer, estar, resistir
Este apelo cruel da existência
Dos duodécimos bancários
A contabilidade do pão, do leite
Ela não mais virá
Contemplar os mortos da página
A remissão do silêncio e das palavras

sábado, 3 de agosto de 2013

1001 + 76 - Instruções normativas para um breviário de nadas

Não escolha caminhos
Não deseje palavras
Dê as costas para ausências
Não discuta com o silêncio
Escolha árvores escuras
Converse com peixes ávidos
Esqueça gramática e dicionários
Cultive a lucidez dos vaga-lumes
Deixe aflorar a demência no verso
Compartilhe pedras e cigarras
E se tudo isso não der em ruína
Comece a temer a surdez dos vegetais

p.s. “sobre o nada eu tenho profundidades”
Manoel de Barros

segunda-feira, 24 de junho de 2013

1001 + 75 - a primeira vez que estive em ti

ventou em moinhos o coração
fez calmaria e temporal
na mesma perdição
me perdi em tanta pele e mãos
a primeira vez que estive em ti
não cabia de soluços a solidão

sexta-feira, 14 de junho de 2013

1001 + 74 - Acendendo a vela para Dario com um cigarro (com um cigarro acendendo a vela para Dario)

p/ Dalton Trevisan

hoje vário silêncio me acompanha
feito a solidão de um anjo morto
na castidade do olhar

hoje me acompanha silêncio vário
feito um anjo morto da solidão
no olhar da castidade

segunda-feira, 10 de junho de 2013

1001 + 73 - Fragmento desperto para remendo em corda de violão II

Este amor que atravessa comigo
Carrega um deserto
O suplício de uma sede
Nem mesmo teu silêncio pode matá-lo

quinta-feira, 6 de junho de 2013

1001 + 72 - Sonata para pergaminho e renda branca


andávamos, andávamos
era só isso o que queria
até o peito pulsar vazio
um sopro no precipício
e as veias sonolentas
rebentassem atônitas

andávamos, andávamos
em nenhum bar caberia
nenhum cigarro suficiente
até as mãos se cruzarem
o gesto apenas esboçado
perdido olhar em extravio

andávamos, andávamos
nada na palavra perseguia
nenhum sorriso benfazejo
tudo que não mais queria
até a sílaba colidir o verso
até o passo quedar imerso

andávamos, andávamos
não saberia dizer a cidade
mas havia o poeta, a praça
o rumor dos transeuntes
o incessante fluir de vozes
um vácuo vindo dos lábios


segunda-feira, 3 de junho de 2013

1001 + 71 - outra receita para brindar amores aziagos

1 poema de rimbaud
ou
1 ácido verso de piva
1 episódio de new york stories
(lições de vida)
1 cabernet sauvignon
cem anos de solidão
a whiter shade of pale
no volume máximo


*Poemas meus na revista Pessoa com ilustração de Lelena Terra e curadoria de Luiz Ruffato.

terça-feira, 28 de maio de 2013

1001 + 70 - porque o coração queria ser Piva e Orides II

Quando o pássaro acordou
Não havia canto nem voo
No céu a nuvem distraída
Desdenhava as suas asas

sexta-feira, 24 de maio de 2013

1001 + 69 - por ti cometeria os pecados mais singulares II


eu vou ficar esperando pelo cigarro
pela última estrela
pelo latido aflito dos cães
pelos poemas que não foram escritos
pela caligrafia rasgada de nomes
eu vou ficar esperando
por um nada, um vazio, um caos
até o peito explodir como uma galáxia

sexta-feira, 17 de maio de 2013

1001 + 68 - Canção para véspera do branco e das mãos


No dia que cheguei de tantos caminhos
Teu corpo era um porto de alvíssaras
Nós que muito já nos havíamos
Tu me trazias o espelho de várias sílabas
Eu me tinha em avessos de estrelas
Nos nossos passos pousaram pássaros
E nos despimos na interrogação dos dias
Feito sonho cravado na pupila do outono

segunda-feira, 13 de maio de 2013

1001 + 67 - Ária de sagração para pedra, flor e água


Não guardo nenhuma intempérie
Nem mesmo raios que ora me habitam
Atravessam a silhueta deste ubíquo olhar
Nada me alcança em tormenta

Venho desde muito longe
Até o mar submergir as palavras
Como uma pedra desnuda
E uma flor sem mágoa

quarta-feira, 8 de maio de 2013

1001 + 66 - Metaplagio cabralino para orgia de astros


um cão sozinho não tece a madrugada
ele precisará na rua de outros cães
que junto com ele elevem o uivo à lua
numa teia inconsútil de lágrima e solidão