sexta-feira, 27 de março de 2015

1001 + 90 - Ária de silêncio para cinzas na atmosfera

Nada me conte sobre os anseios da noite
Da paisagem enfeitada de estrelas
Nem do sublime rumor do orvalho
Nada que incite alumbramentos

Hoje me acerca a ceia indefinida
Dos olhares esquálidos
Da falência da vida
Do barulho insistente dos insanos

Nada de quimeras nesta manhã de incêndio
Poderia estar em Madagascar ou Nairobi
A bordo de uma locomotiva ou avião
Mas em nenhum lugar estaria em liberdade

[Meu peito peja em ambiguidades]


terça-feira, 17 de março de 2015

1001 + 89 - a inevitável sagração do silêncio

o vento quente
algumas palavras no cais
a memória feito insônia
a atormentar as retinas
e eu tão sozinho
que nem o silêncio
podia me abraçar

segunda-feira, 16 de março de 2015

1001 + 88 - A ostra e a teoria do silêncio

As estrelas nascem do caos
A epifania do silêncio
O amor nasce do espanto
O poema nasce feito passarinho
Atordoado para voar

sábado, 28 de fevereiro de 2015

1001 + 87 - ária para adejar o poema na página

se eu fosse ao mar seria simples
bastaria o naufrágio
mas perscruto estrelas
quiçá sirius, arcturus, betelgeuse
emanações instáveis do poente helíaco
o sacrifício de incenso e vinho
a cadência do céu noturno
cercado de raios
traçando cursos e destinos
e seis pastoras vermelhas
me devorando asas e costelas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

1001 + 86 - Um fado para qualquer lonjura

Quis eu por mares desconhecidos
Elevar uma prece desmedida
Para que navegar não fosse caos
Quis eu o intento não me quis as naus

E assim em terras pouso o brasão
Semeio quimeras por todo chão
Vislumbro de soslaio os ares dela
Quis eu o intento não me quis a donzela

Mas se do espaço me olho almejo voo
Vago o céu infinito entre as estrelas
Vou tecendo o desalinho desta contenda
Quis eu o intento não me quis a oferenda


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

1001 + 84 - p.s.

e porque era estranho
soletrar estrelas
incumbiu-se no
adestramento de nuvens


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

1001 + 83 - queixa crime de fulcro passional

considerando as fundamentações
os princípios de razoabilidade
o entendimento exortado
ante o exposto
o poema transita em julgado
em assertivas dionisíacas
como uma flor lisérgica
para o mérito da amada

publique-se, cumpra-se

1001 + 82 - Poema para uma concepção do belo

Uma bunda
Uma perna
Um jardim

Uma montanha
Uma árvore
Uma espádua

Um lábio
Um estuário
Uma estrela

Um coração
Uma ilha
Um promontório

Um cio
Um ócio
Um equinócio


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

1001 + 81 - Sonata de areia para vento bravio

Eu nunca soube do amor
Nem mesmo quando
Nos amávamos
Eu nada sabia
E na minha ignorância
De te amar
Eu nunca soube do amor
Nem mesmo quando
Nos rendíamos
As saliências da pele
Eu nada sabia
E enquanto diviso o horizonte
E recolho no alforje
Uns girassóis assustados
O vento me sussurra
Que eu nunca soube do amor
Eu nunca soube do amor


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

1001 + 80 - Poeminha para fina caligrafia

Tudo se torna canção
Uma pedra
Uma nuvem
A solidão

Dois olhos
Um silêncio
Um hiato
Ou um afago

Tudo se torna canção
Mesmo que a
Palavra cansada
Diga não

Duas ruas
Um perímetro
Ou aquilo que
Não se acentua

Tudo se torna canção
Um mínimo
Um acontecimento
A lua e o cão

Duas pontes
Uma travessia
Um vão
Talvez sim ou não


terça-feira, 12 de novembro de 2013

1001 + 79 - Poeminha de nenhuma ou múltiplas faces

Tenho semelhança com orvalho
Abraço a festividade de rio
Fico inteiro passarinho
E assim, copioso de aparências
Adormeço tardio de esquecimento