sexta-feira, 12 de agosto de 2011

673 - rapsódia para quando ventarem os girassóis de agosto

depois que ela se foi com as intempéries de agosto
eu fiquei com esta face em desalinho: os pés atados
caminho sobre pedras como se em lanças afagasse
tenho dito as cotovias que nenhum canto nos salva
mas elas insistem e eu fico atônito entre sustenidos
outro dia lagartos deram de açoitar versos e estrofes
queriam o sabor das auroras em germinação estéril
depois que ela se foi com as intempéries de agosto
meus instintos se arvoraram em verbo ensandecido

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

672 - variação para cello e oboé em agreste rapsódia

tão sutil o visgo dessa sede
seiva que escorre em lábios

eu querendo florir a tua pele
voce esquiva em pas de deux

aprendiz estágio de purificação
corpo em sublimação de altura

não fosse o casulo que me cala
não fosse desatino ao derredor

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

671 - Cantata em rito para novena de sete noites

é preciso acolher tempo e silencio
sou rio nessa empreitada de mar
e os olhos deram de acender nuvens
vejo girassóis em abóbadas e auroras
assim me alimento de contemplação
mesmo vazio pesam-me as algibeiras
deve ser o estranhamento que carrego

terça-feira, 9 de agosto de 2011

670 - rapsódia de alumbramento para gioconda ao arrebol

seria imperioso que os teus olhos passassem
com esse jeito desconexo de fitar o desalinho
como se a coisa mirada estivesse embebida
numa aura de equidade entre os hemisférios

seria imperioso que os teus olhos filtrassem
a maresia que contamina o espelho do asfalto
reflexo de rotas e extravios, obituário de sais
e ficassem no lusco-fusco que atrai mariposas

seria imperioso que os teus olhos declinassem
de toda a singeleza que envolve as cartografias
e de repente altiplanos, horizontes e metáforas
fossem apenas precípuo para o alumbramento

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

669 - rapsódia incômoda para extravio e embaraço

algum tempo acreditei na pele como atavio
e que a têmpera dos anos fosse delineando
o descaminho que flora na carne os sentidos

mas sob o impacto dessa chaga que me arde
diviso a luz que trespassa os corpos em sede
sei que a aurora fenece sem alarde e encanto

hoje tenho as mãos enredadas em solilóquio
nenhuma sombra acompanha-me de acalanto
nenhum canto suprime a inutilidade do existir

domingo, 7 de agosto de 2011

668 - rapsódia desencontrada para estados químicos dos corpos

não guardei os caminhos que me trilhaste
mas as intempéries trago-as triste
o sol em destempero neste agosto

esta vontade de lua cheia
acende lume nos invertebrados
cada toque arisca a pele em chagas

tu não me ensinaste apascentar a chama
queimam-me os sóis em querelas
nem os peixes se refrigeram em líquido

sábado, 6 de agosto de 2011

667 - metaplágio para tempestades de início do verão

acaso tu sabes dos percalços
que imantas em meus olhos
quando desavisada
irrompes neste silencio
e todo o mundo se concentra
no achado das tuas mãos
e todas as órbitas
giram desencontradas
e eu no mais fundo sacrilégio
mergulho em prece
neste infindo precipício
de línguas, bocas e peles

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

666 - metapoema assustado à guisa de portos cardeais

ao oeste do que me vive
comove o verso que leste
és meu norte por todo sul
mesmo em sol quando suo

intuo de arroubo o sumo
da palavra atada ao cais
para subverter da sílaba
vértebra nua em voo cego

* A Dani me fez feliz oferenda aqui

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

665 - prosa rasa para rútilo cintilar

a poesia escoiceia a didática
obcecada pela ânsia do espanto
ruge aos sentidos em oferenda
para fluir trôpega na vertigem
lamber os parágrafos da língua
improvisar um rito de assombro
saciar assim o céu de elevação

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

664 - estudo para étimo consoante aboio na caatinga

por pura assepsia retiro a palavra estéril
deste dicionário idiossincrático que velo
como velam o cuspe sonoras carpideiras
como os velhos velam o tempo da espera

também seria a palavra reverencia retirada
por pura simbologia ao dicionário que velo
como velam as árvores na paisagem tardia
como os ventos imolam o casco do navio

seria de bom alvitre por fastio em retirada
pelo que se denota a acepção da palavra
numa espécie de cansaço, fadiga, afronta
numa inércia que deixa repousar o volátil

deste dicionário que velo o silencio bastaria
como flecha para atingir todos os sentidos
como manto para tingir o véu de toda face
como um acalanto para tanger o intangível

*Bate-papo comigo no blog do Gustavo

terça-feira, 2 de agosto de 2011

663 - repentino ávido para lumes do arrebol

há um assombro de impaciência
sob a tênue luz dos vagalumes
quando teus passos se deslocam
e fito fixo esse espelho que me és
destino inexorável, risco de tristeza

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

662 - repentino casto para amoras, violas e oboés


para decompor-se
em fidalguia no teu olhar
urge a aurora de assombros
anuncia-se o sobressalto de luz
o jasmim refrigera-se no orvalho
enquanto do outro lado da moeda
acena-me o infortúnio das tuas mãos