ela me fazia de silencio
para encantar-se
era tão doce olhar-nos
numa carícia tão distante
alumbrava-me de infância
como um porquinho da índia
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
703 - canção de bem querer para doce precipício
o lábio dela é brisa
sincero assovio
pluma
nunca dá vontade
de sossegar
o cheiro, a saliva
o lábio dela é brisa
pouso macio
recosto de nuvem
fonte
que nunca sacia
sincero assovio
pluma
nunca dá vontade
de sossegar
o cheiro, a saliva
o lábio dela é brisa
pouso macio
recosto de nuvem
fonte
que nunca sacia
sábado, 10 de setembro de 2011
702 - variações para um poema de guerra e paz
quando falam em guerra
eu lembro de duas bombas
que explodiram dentro de mim
kamikase que sou
em hiroshima e nagasaki
era assim em átomos
vagas que queimam
ainda na solidão dos dias
quando falam em guerra
eu lembro de duas bombas
- duas torres, uma babel -
que não cansam de mutilar
(a paz)
eu lembro de duas bombas
que explodiram dentro de mim
kamikase que sou
em hiroshima e nagasaki
era assim em átomos
vagas que queimam
ainda na solidão dos dias
quando falam em guerra
eu lembro de duas bombas
que não cansam de mutilar
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
701 - repente arisco para nomeada de pontos cardeais
o teu corpo inteiro
é descaminho
fado de madrugadas
inconstantes
pétrea carícia,
rubro desassossego
solidão em pares
intumescidos
crescente alvoroço
para as retinas
o teu corpo inteiro
me descaminha
deixa-me silente
em alumbramentos
nada contenta
o rebuliço da alvorada
nenhuma palavra salva
o naufrágio dos teus lábios
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
700 - repente para nomeada de gravatás na trovoada
encilho o pretérito na dobra da vereda
atravesso de espinho a espinho
dou-me lamina de pele para cortá-los
e se me sangro mais
nem a palavra há de estancar
recolho as visagens de tantos preás
de tocaia para parco passarinho
dobram-se as asas, não o canto
vergam os olhos na altiva alvorada
o menino ficou na rede da varanda
alvoroçado de alumbramentos
com água nos olhos de inundação
e as mãos sedentas de te possuir
encilho o pretérito na dobra da vereda
atravesso de espinho a espinho
dou-me flagelo de exasperar
no passo mais mineral do descaminho
não há palavra que me salve da ruína
atravesso de espinho a espinho
dou-me lamina de pele para cortá-los
e se me sangro mais
nem a palavra há de estancar
recolho as visagens de tantos preás
de tocaia para parco passarinho
dobram-se as asas, não o canto
vergam os olhos na altiva alvorada
o menino ficou na rede da varanda
alvoroçado de alumbramentos
com água nos olhos de inundação
e as mãos sedentas de te possuir
encilho o pretérito na dobra da vereda
atravesso de espinho a espinho
dou-me flagelo de exasperar
no passo mais mineral do descaminho
não há palavra que me salve da ruína
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
699 - repente desavisado para exaurir canto de sereia
tu me deste esta sina de silencio
de carpir fugas e intempéries
recortaste a face de pretéritos
com esses lábios que invocam
o tumulto de muitos assombros
és-me ilha em meio ao temporal
e não tenho porto para ancorar
um vento ruge de popa a proa
enquanto no horizonte sedoso
acalentas velas em rito de prece
* O Wilson Nanini me plantou este oásis aqui
de carpir fugas e intempéries
recortaste a face de pretéritos
com esses lábios que invocam
o tumulto de muitos assombros
és-me ilha em meio ao temporal
e não tenho porto para ancorar
um vento ruge de popa a proa
enquanto no horizonte sedoso
acalentas velas em rito de prece
* O Wilson Nanini me plantou este oásis aqui
terça-feira, 6 de setembro de 2011
698 - para uma geografia de asas cortadas
p/ Wilson Nanini
meu tumulto é a palavra
descortino alvoradas
com ela dou-me vícios
repito até a exaustão
corruíras e girassóis
jasmins e sempre-vivas
com ela alço esse ímpeto
de arcanjo sem asas
vislumbro sol e arrebol
tenho mares e alamares
feitiço de todos os santos
meu tumulto é a palavra
em raízes e predicados
silêncios e alvoroços
na mais funda evocação
com ela dou-me instintos
pelejo lamina e punhal
lido com reinos, donzelas
reordeno o mineral, vegetal
faço trovejar na caatinga
vazo leito, ribeiro e córrego
alço de ímpetos o vocábulo
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
697 - repente para colorir o aprendizado das fadas
queria cobrir de espantos
o inesperado da tua astúcia
esse ruflar de mãos
esse alvoroço de membros
mas só tenho asas em fuga
um desatino de canto
nem os córregos florescem
no naufrágio deste olhar
o inesperado da tua astúcia
esse ruflar de mãos
esse alvoroço de membros
mas só tenho asas em fuga
um desatino de canto
nem os córregos florescem
no naufrágio deste olhar
domingo, 4 de setembro de 2011
696 - sonata de ausência para girassol, trevo e fogo-fátuo
já não tenho mais silêncios que possam te caber
desfolhei folha por folha o trevo que encontrei
era ciranda de malmequer
arranquei os desígnios por todos os caminhos
as estradas não conduzem, abduzem
é somente sol e poeira embaçando os olhos
os girassóis aguardam mais um arrebol
já não tenho mais silêncios
agora é tumulto e insanidade percorrendo-me
não sei se esqueci de dizer que as horas queimam
nesse fogo-fátuo que ousei te acender
desfolhei folha por folha o trevo que encontrei
era ciranda de malmequer
arranquei os desígnios por todos os caminhos
as estradas não conduzem, abduzem
é somente sol e poeira embaçando os olhos
os girassóis aguardam mais um arrebol
já não tenho mais silêncios
agora é tumulto e insanidade percorrendo-me
não sei se esqueci de dizer que as horas queimam
nesse fogo-fátuo que ousei te acender
sábado, 3 de setembro de 2011
695 - sonata de ausência para tango de bandeira
a vida é ruína, ausência, destroços
desde o dia em que te vi
não parou de pulsar
essa tormenta que atrofia o peito
me socorrem uma tosse, um engasgo
um verso que não esqueço
morto aos trinta e três, trinta e três
desde o dia em que te vi
não parou de pulsar
essa tormenta que atrofia o peito
me socorrem uma tosse, um engasgo
um verso que não esqueço
morto aos trinta e três, trinta e três
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
694 - sonata de ausência para ruídos de curta duração
já se vão as coisas para o resguardo
onde se coagula o despertencimento
a cadeira deixa de ser assento, pouso
será apenas madeira e suor do trabalho
estas palavras que uso agora em diante
serão caracteres a espera de significado
pois tudo é ausência neste árido terreno
nada há de florescer sem rigor de mãos
onde se coagula o despertencimento
a cadeira deixa de ser assento, pouso
será apenas madeira e suor do trabalho
estas palavras que uso agora em diante
serão caracteres a espera de significado
pois tudo é ausência neste árido terreno
nada há de florescer sem rigor de mãos
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
693 - sonata de ausência para fado, algibeira e tabacaria
trago somente na algibeira um fardo
o extravio de tantos mapas e bússolas
essa sede de tantos desertos
a foto amarela em que sorrias em alvíssaras
o fado de noite e silêncio por todos caminhos
pois perdoa este amor de passante
que apenas recolhe fragrâncias e olhares
nunca tive ímpeto para a salvação
nunca soube recolher os sargaços do mar
trago somente o travo de um verso,
desfolhado na tabacaria de defronte
o extravio de tantos mapas e bússolas
essa sede de tantos desertos
a foto amarela em que sorrias em alvíssaras
o fado de noite e silêncio por todos caminhos
pois perdoa este amor de passante
que apenas recolhe fragrâncias e olhares
nunca tive ímpeto para a salvação
nunca soube recolher os sargaços do mar
trago somente o travo de um verso,
desfolhado na tabacaria de defronte
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