terça-feira, 30 de novembro de 2010

414 - último poema para desterro e estrada II

Puseram-se em folguedo as sílabas em estranho fogo-fátuo
E corriam-me vocábulos pela iridescente poesia da tua mão
Quem sou eu pelos teus caminhos de tão insana correnteza
Quem és tu a inflamar desejo e por tumulto em casta nuvem

Há ainda luz a ser consumida nesta babel de tanto equívoco
Alvoroço na alcova clamando em nudez corpos sempiternos
No desassossego deste horizonte que se rabisca em escarcéu
Na sina do poema que há de ficar cativo ao ermo da página

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

413 - improviso para luzes e nascimentos

estávamos entre quedas e abraços
como um morno rio de promessas
eu abria minhas mãos a cada passo
e reencontrava signos em tuas flores

havia tanto espaço em nós apertados
que avultavam ramos em nossa árvore
escorriam as sedes das muitas veias
as línguas se entrelaçavam em olfato

do destino das manhãs ao lento ofício
de janelas que fazem o ar perpetuar-se
éramos os cristais prestes ao estilhaço
areia fina a espera de pés e novidades

domingo, 28 de novembro de 2010

412 - Último poema para desterro e estrada

És ainda o engano da maçã
Moça turva de árida nuvem
Que ansiei em doce acolhida

És ainda trem em descarrilo
Estação sem pouso e parada
Inútil degelo em meu inferno

És ainda fugídia das sombras
Pastora do cio na madrugada
Dente que morde o calcanhar

sábado, 27 de novembro de 2010

411 - Poema para ílio, ísquio e púbis

Penso ascender em sinais pélvicos
De toda a lira que delira na virilha
Escorrer-te em sumo destes versos

Penso a tua casta senhoria de flora
Deslizando o rouco trovão na pele
Do incendio no fino cristal da mata

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

410 - Diálogo para contemplar um fim de tarde

                                      p/ Pedro Ramúcio

Tragam-me dois ou três fardos de existencia
Para que os girassóis poetizem a ordem do dia
Que o mundo já não se cabe em dessemelhança
Eu mesmo, que ando torto em véspera de olhar,
Principio a me perder na sinuosidade do vento

Outro dia um amigo disse que andava em sustos
Temia a retidão das pedras e vivia a por adornos
Repliquei que assim é o descompasso da estrada
As coisas se decompõem antes da sua completude
Só passarinhos cantam eternos em sumiço de laço

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

409 - Improviso para viola de casco de tartaruga

Ouço no pretérito meu coração em tuas mãos empoeirado
Resvala-me de cílios para cobrir as nossas tempestades
Põe cordas e açoite nessa prece que invoca a madrugada
Se nada em ti faz sentido açoda-me o vento nas virilhas
Dá-me o desterro de tua voz tão antiga quanto um blues
Pois estou sem alma alvoroçado nesta torpe encruzilhada

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

408 - poema sobre sopa de cavalo cansado *

quando vem a madrugada vento-me
no rodopio sinuoso das mariposas
prestes a perder os olhos diáfanos

cada canção reflete um autorretrato
e eu decomponho meticulosamente
arestas do nosso silencio de almas

enquanto houver calçada inclino-me
e cada gesto sob a opaca iluminação
será teu presságio a desencantar-me


*sopa de cavalo cansado é uma canção do dead combo

terça-feira, 23 de novembro de 2010

407 - anti-poema para duas ou três saudades

antes do lajedo havia uma pedra
circunstanciada nos mistérios
de tanto passar o ar: arrevesou

eu sempre fui menino indolente
e gostava de ver as meninas
tomando descompostura do vento

cada saia subida o alumbramento
de ficar tonto com as querências
às vezes molejava o corpo há dias

na beira de rio havia limo nos pés
se mergulhava de mão em concha
pra colher visgo na pele das piabas

caçoar da sorte era fingir de te olhar
porque eras como pedra arrevesada
sempre em circunstancia de mistério

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

406 - elegia breve e assustada

investigo estrelas em busca de uma morada
desde que a espada decepou a palavra
venho morrer mais um pouco em tua língua

domingo, 21 de novembro de 2010

405 - elegia rude para cactos e punhais

já se foram os corcéis e os medos
em contínuas viagens de solidão
ouço procul harum, revisito poemas
na galeria de fotos inscrevi teu gesto
aquele derradeiro vindo do calcanhar
como flecha certeira em descaminho

se existem prelúdios intermináveis
ouso compor ainda o mais extenso
em que a rota no deserto se bifurque
entre casa cálida e avenida em verão
na seta dos girassóis mais intensos
avermelhados de todos os abóboras

percorri com dor margens dos rios
na maresia de crustáceo naufragado
fiz imagens de tolas reminiscências
habitei por instantes o aquário vazio
busquei o íntimo das águas e peixes
fui companheiro de algas e arrebóis

por isso te digo com calma e ternura
que não há ventania neste meu olhar
que não há desejo na pele que restou
apenas cumpro a sina do improvável
a terna rotina do peregrino da sombra
a esgrimir atônito com palavras e sons

sábado, 20 de novembro de 2010

404 - Poema para depois do profiterole

Tudo que faço vem morrer em ti
- Liquefeito, vaporizado
Até que me tragas a escova de dentes
E o sorriso pasteurizado da modelo
Desperte-me para a constatação:
Faço poemas porque cansei de dançar

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

403 - poema para nuvem e casca de árvore II

às vezes um solo me habita
escorre-me o sumo nos pés
cresce em mim feito árvore

e eu fico todo ao seu feitio
ave de barro, estrela dӇgua
no viés de ponto e margem