terça-feira, 23 de novembro de 2010

407 - anti-poema para duas ou três saudades

antes do lajedo havia uma pedra
circunstanciada nos mistérios
de tanto passar o ar: arrevesou

eu sempre fui menino indolente
e gostava de ver as meninas
tomando descompostura do vento

cada saia subida o alumbramento
de ficar tonto com as querências
às vezes molejava o corpo há dias

na beira de rio havia limo nos pés
se mergulhava de mão em concha
pra colher visgo na pele das piabas

caçoar da sorte era fingir de te olhar
porque eras como pedra arrevesada
sempre em circunstancia de mistério

16 comentários:

Mai disse...

Entre frestas e soslaios - a timidez, o desejo e a poesia.Adoro a palavra e a imagem do lajedo. Brincar com água na concha das mãos pra ver a vida miúda e a miúda-vida.

Belíssimo!

Mai disse...

É incrível quando um poema fala assim e segue com a gente.

Sabe do que lembrei?
"Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino."

É só o amor.

beijos, Assis.
obrigada por abrir meu dia assim.

Wanderley Elian Lima disse...

E justamente no mistério, é que habita o prazer. Querer e que quase nunca poder.
Abração

teca disse...

Adoro vir aqui te ler... poesia pura, termos diferentes, que encantam...

Te contar: "caçoar da sorte era fingir de te olhar". Isso é que dá! :)

Beijo carinhoso.

Zélia Guardiano disse...

Ah, lindeza, meu querido Assis!
Poesia acumulada nos cantos da alma...
Abraço, amigo!

AC disse...

Há saudades arrevesadas que nunca descolam de nós...
Muito belo!

Abraço

Bípede Falante disse...

Porque tem poetas que fazem a gente se sentir uma deliciosa menina :)
ah, tem!
beijos

Everson Russo disse...

Essa saudade foi perfeitamente desenhada em imagens pelos seus belos versos...abraços de bom dia pra ti amigo.

Lou Vilela disse...

Algumas coisas não mudam;
outras, permanecem mistério...

e há ainda a sorte de fingir,
o visgo, a descompostura, o vento,
o corpo, o açoite...

: uma diversidade de imagens despertas.

Cheiro

Ingrid disse...

leveza pura nas tuas saudades Assis..
me transportei..
Beijos.

Mirze Souza disse...

Assis!

Essas saudades são pérolas que guardamos ad-eternum!

Beijos, poeta MIL"

Mirze

Lua Nova disse...

Misteriosa é essa sua capacidade de fazer versos cheios de magia e memórias, que parece, foram tiradas dos meus dias de criança também.
Assis, que vc vai fazer depois de completar os 1001 poemas? Já to preocupada...!!
Muita saudade e beijokas.

Malu disse...

Assis,


Que gostinho bom de infância
nessa sua poesia ... :)


"eu sempre fui menino indolente
e gostava de ver as meninas
tomando descompostura do vento"

Coisa boa isso !!!


Bjo.

Luiza Maciel Nogueira disse...

a poesia vai se abrindo, desvela alguns mistérios nas palavras..lindo! beijos

Marcantonio disse...

Como não expressar entusiasmo por um poema desses? Que anti-musa generosamente contraditória é a saudade!

Abração!

Lau Milesi disse...

E hoje você é um menino poeta. :)
Lindo, seu poema. Quisera eu ter só duas ou três saudades.:(
Beijo e bom dia!