terça-feira, 30 de agosto de 2011

691 - sonata de ausência para barco, quebra-mar e violoncelo

não há contemplação
as balsas se espraiam no horizonte
acendo o cigarro e trago o arrebol
caminho entre sargaços
que o mar empresta a terra
aqui há um cheiro embevecido
que faz refúgio nas têmporas
seria melhor se chovesse
e todas as águas se misturassem
e se perdessem em sacrifício
no encontro de sal
e quatro átomos de carbono,
brandura e delicadeza
coisas que já não tenho
mesmo quando soam os acordes
e um cello desavisado me abotoa
de lembranças e tudo é um travo
como aquele que desbotou
na mancha da calça, no tecido fino
da camisa, nas meias e nos sapatos
quando as portas se cerraram
quando os lençóis se condoeram
e nada aquecia, e nada acalentava
a ausência nos meus pés umedecidos

12 comentários:

dani carrara disse...

o poema parece qualquer lugar perdido dentro de nós
mas as vezes fica tudo branco, só branco e ..

um beijo

MIRZE disse...

Tão triste, Assis!

Destrave!

Beijos, poeta!

Mirze

Ribeiro Pedreira disse...

eis que uma nau nos rouba um olhar e segue para além do arrebol. os pés em terra firme levitam na ausência do mar.

Ingrid disse...

bela melodia querido Assis..
a senti ..
beijo

Jorge Pimenta disse...

sonata em tons outonais. ai, que este agosto antecipa a queda das folhas.
um abraço, querido amigo!

Nilson disse...

Soberbo, meu caro. Talvez o que mais gostei até hoje, dos que li. E olhe que é muita a qualidade do que tenho lido. Abração!

Tania regina Contreiras disse...

Beleza enevoada, meu amigo...Lindo poema. O mais lindo? Nossa, tenho alguns dos teus que amo tanto, e outros que amo muito...Sempre bom te ler...
Bjos,

Van disse...

Nada se pode reter, tudo é ausência ou um dia será.

Beijos Assis!

Luiza Maciel Nogueira disse...

Assis sempre acho que ta poesia por si só já é música composta em acordes magistrais

beijos

Eurico disse...

Belíssimo!
Uma marinha impressionista, à altura de um Monet.
Variações em cello solitário, com índole brasiliana.
Um poema, com a vastidão oceânica tão própria deste Poeta, ungido por San'Ana.

Abç fraterno.
E grato pelas atenciosas visitas.
Coisa que tanto me honra quanto me faz contente.

dade amorim disse...

Quando alguma coisa se perde.
Beijão.

Cris de Souza disse...

quebra-mar
a ver navios
no olhar

...