sábado, 25 de dezembro de 2010

443 - pequeno diário de rasa profundidade (anotações esparsas)

Observo atentamente os vestígios
A existência deixa seus rastros
A sobra da maquilagem esquecida
O leve inclinar do corpo ao passo
A resistência dos lábios disformes
Cada batida no coração destronado
O inefável declínio de pele e ossos
O canto da cotovia assustada
O irremovível papel de parede
As cinzas do cigarro inacabado
O repouso da mão sobre o colo
O perene vento a esparramar-se
O fogo que atiça a longa noite
A proeminência das horas
A sede, o fastio, a flor na lapela
A intromissão dos fatos proibidos
A memória, o retrato, a página
O lento despertar para a alvorada
O que nunca cede, o que nunca fala
A constatação inóspita da inutilidade

11 comentários:

Thiago disse...

Olá Assis!

Linda poesia! Todos os versos compostos com maestria! São coisas da vida e às vezes precisamos viver uma vida inteira para nos dar conta disso. Parabéns pelo post!

Abraço,

Thiago

Everson Russo disse...

Diario dos sentimentos e da paz interior,,,ou, a busca por ela...um belo dia de Natal pra ti amigo...abraços.

Lívia Azzi disse...

Sentimentos e pensamentos tomados pelo vazio podem brilhar e resplandecer em novas alvoradas...

Feliz Natal!

Um beijo!

Mirze Souza disse...

ASSIS!

Aquele que nunca cede, o que nunca fala, é a própria constatação inóspita!

Maravilha!

Beijos, poeta MIL!

Mirze

Oria Allyahan disse...

Mas viva a inutilidade da poesia!!

Grande abraço, poeta!

^^

Eder Asa disse...

Cada verso é um poema!
Maravilha, Assis...

teca disse...

Seus versos ecoam na blogosfera... e eu venho insistentemente aqui pegar o tom.

Um beijo carinhoso, poeta, que verseja sabiamente.

Marcantonio disse...

Profundo e melancólico arrolamento de imagens que ficam suspensas entre o extravio definitivo de algo e sua perenidade como memória. Registros, recortes para formar o painel impossível de uma passagem distinta. Como uma câmera que que vai mostrando lentamente os objetos do quarto de alguém que já se foi.

Abração, Assis.

dade amorim disse...

... e tudo isso que nos toca, mobiliza quase sem percebermos e coabita nossas pobres cabeças mortais...

Beijo beijo.

Lau Milesi disse...

Poema/diário de "profunda profundidade", poeta. A começar pelo primeiro verso. Me encanto ao ler a palavra "vestígios".
Admiro essa palavra.Acho-a forte. Vestígio, pra mim, é ranço, lastro...
Parabéns, poeta.

Beijo

Vou me atualizando, aos poucos,nas suas belas obras. Estava dodói, Assis.

Lídia Borges disse...

Permita-lhe destacar um verso:
"O repouso da mão sobre o colo" pela indelével imagem de abandono que perpassa o poema.


L.B.